A arte da política é semelhante à boa jardinagem

Tomo emprestado boa parte de um belíssimo texto do falecido escritor Rubem Alves, escritor mineiro que, por sinal, nasceu na mesma cidade que minha mãe (Boa Esperança).

Alí exerceu o magistério por muitos anos, sendo também pastor evangélico.

Em seu texto intitulado “Sobre política e jardinagem”, ele foi de uma grande felicidade ao discorrer sobre o que pensava sobre a política, comparando esta com a tarefa de um zeloso jardineiro que quer o bem estar de todos e todas.

Nas palavras de Rubem Alves, “…a política é a mais nobre de todas as vocações. Para ele, essa vocação nada mais é do que um ‘chamado’ chamado amoroso por um ‘fazer’ que é – e deve sempre ser – um ‘fazer’ por vocação. Quem atende a esse chamado nada mais quer do que se doar às comunidades, às sociedades, ao mundo. Em sua visão, com a qual eu concordo, o vocacionado se doaria mesmo que fosse para não ganhar nada.

A ‘Política’ vem do grego ‘polis’, e quer dizer cidade. Para os gregos, a cidade era um espaço ordenado, manso e seguro, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. Portanto, a vocação política estaria a serviço da felicidade de todos os moradores da cidade.

Já os hebreus, povos da Bíblia, talvez por terem vagado por longos anos nos desertos, não sonhavam com cidades. Os hebreus sonhavam com jardins que é o ambiente mais parecido com um oásis. Para o povo hebreu, Deus não criou uma cidade, criou um jardim. Nessa linha, se perguntássemos a um profeta hebreu ‘o que é política?’, ele nos responderia que é ‘a arte da jardinagem voltada para as coisas públicas.’

O político por vocação, defendido por Rubem Alves, é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. “De que vale um pequeno jardim se a sua volta está um imenso deserto?”

Rubem Alves se dizia um grande amante de sua atividade de escritor. Semelhante a ele, também posso dizer que amei minha vida de professora e, hoje, a minha atividade política, enquanto a exerço. Ser servidor público neste País é uma atividade bela, porém, fraca e desvalorizada, assim como as letras do escritor mineiro. O escritor tem amor, mas, juntamente com quem vive do próprio suor,  não tem poder. Mas quem exerce a política, exerce o Poder em toda a sua amplitude. “Quem sonha junto”, sendo político, escritor ou trabalhador torna-se um poeta forte, pode transformar projetos de jardins em grandes jardins de verdade.

Resumindo: a vocação política é transformar sonhos em realidade.

É uma vocação tão feliz que Platão, um dos pais da filosofia ocidental, sugeriu que os políticos não precisavam possuir nada. A eles bastaria sua parte no “grande jardim para todos”. Para ele, qualquer privilégio do jardineiro tivesse seria INDIGNO. Diferente do que o atual bombardeio feito pela mídia nacional pretende espalhar, há no Brasil muitos políticos que atuam por vocação. Suas vidas foram e continuam sendo grande motivo de esperança para a população.

A Vocação de que estamos falando é muito diferente do simples exercício de uma profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade naquilo que faz; tanto mais quanto melhor for o resultado. Já na atividade profissional, o prazer se encontra no ganho, no lucro derivado do exercício profissional. O homem movido pela vocação é semelhante àquele que ama de verdade. Relaciona-se por amor e pela alegria derivada desse ato.

O nosso grande cuidado é em função de não permitirmos que as vocações sejam  transformadas em profissões, pois o jardineiro que hoje atua, por vocação, no jardim de todos, poderá, amanhã,  se transformar em um político profissional que usa o espaço  de todos para construir seu jardim privado, mesmo que, para que isso aconteça, ao seu redor aumentem o deserto e o sofrimento.

Assim é a política, e não são poucos os políticos profissionais. E assim como iniciamos falando que a política era “a mais nobre de todas as vocações”, reverto minha fala e ouso afirmar que, em um certo contexto a política é a mais vil de todas as atividades, se for tomada como profissão! Isso talvez explique o atual desencanto do povo em relação à política.

Guimarães Rosa, outro escritor famoso no Brasil por retratar exatamente o sertão de Minas Gerais, disse certa vez que “jamais poderia ser político com toda a charlatanice de nossa realidade”. Quem age apressadamente, pensa poucos passos adiante, e não tem a paciência necessária para plantar árvores, porque ela leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las sem nunca ter plantado.

O futuro de todos/as nós depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos profissionais. Mas é triste sabermos que muitos que sentem o chamado da Política (com P maiúsculo) não atendem por medo de ser confundidos com mercenários e  vergonha de ter que conviver com os exploradores de uma atividade tão nobre.

O Brasil tem pouco mais de 500 anos de ocupação dita “civilizada” e, os seus  descobridores, ao aqui chegarem, não encontraram um jardim, mas uma selva. E selvas são inóspitas e cruéis; indiferentes ao sofrimento e à morte.

Aquela selva inicial poderia ter sido transformada num jardim. Não foi porque os que sobre ela agiram não eram jardineiros, mas exploradores: lenhadores e madeireiros. E desse jeito, aquilo que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados, onde poucos encontram vida e prazer.

Aquele “descobrimento” de 1500 foi um descobrimento de origem. Mas podemos fazer outro descobrimento. Belo desta vez, por se tratar de uma nova destinação; a descoberta de que os políticos por vocação podem se “apossar” do jardim com o objetivo de traçar um novo destino. A partir de então – e é preciso que seja o mais breve possível – em vez de desertos e jardins privados, teremos grandes jardins para todos, obras de mulheres e homens tiverem o amor e a paciência para plantar árvores, mesmo tendo a certeza de que, eles mesmos,  nunca se sentarão em suas sombras.

Rubem Alves. Folha de São Paulo – maio de 2000.

Apud – PORTUGÊS, Língua, Literatura e Produção de Textos

 – 3. Pg.159-60.

Adaptado por Omar Cirino de Souza – para Edna Mahnic… com Amor.

Compartilhe esse Post

Com muito ❤ por go7.site