O gênero e seus significados

De uns anos para cá, observo que estamos perdendo muito tempo, batendo cabeça entre nós por conta de um falso problema: a discussão ‘acirrada’, porém vazia, em torno da palavra gênero. O equívoco se manifesta em profusão, e envolve algumas pessoas de determinados movimentos sociais  ou de grupos que se dizem tal, na mídia em geral e nas redes sociais. Também no seio de muitas Universidades. Indistintamente dizem: “Isto é uma questão de Gênero!”. Ou “…o Gênero dentro do trabalho…”; “O Gênero e a Política…”; “A construção de Gênero… ” etc. Poucos no entanto se perguntam o que, afinal, seria esse Gênero, já que se trata de um conceito bastante amplo e é aplicado às artes dentro de suas subdivisões e, dentro dessas divisões, como na literatura, há o gênero lírico, o épico e o dramático. Na linguagem escrita (jornalística ou não), encontramos os gêneros textuais dissertativos, narrativos, contos,  crônicas etc. .

Longe de querer significar apenas masculino-feminino (homem-mulher), os dicionários registram que a própria palavra gênero é (em si mesma) um “substantivo masculino”, e traduz uma gama muito vasta de conceitos e ideias. Pode se referir a um conjunto de seres ou objetos que possuem a mesma origem ou que se acham ligados por alguma semelhança particular. Há os gêneros alimentícios! Numa classificação botânica também há gênero: trata-se de uma  “classe cuja extensão se divide em outras classes, as quais, em relação à primeira, são chamadas espécie“. Isso é válido para os reinos vegetal e animal.

Quando nos referimos ao ser humano, existe o masculino e o feminino; já para  a simples menção a um objeto qualquer, existe o neutro, que nada mais é do que a palavra ou nome com que designamos os objetos, seres inanimados, que não possuem sexo (o martelo, a flauta). Ao contrário dos animados que, ao serem classificados na biologia, a referência de gênero é utilizada como ferramenta para melhor compreensão de sua natureza.

Gênero é empregado também em um dos significados atribuídos  a costumes e idéias. Por último, esclareço que a expressão “Gênero de Vida” passa a ideia de conjunto de atividades habituais, provenientes das tradições. E sabemos que, a partir dessas atividades os grupos sociais asseguram suas existências, configurando uma economia que pode ser local, regional e até de toda uma nação.

Como vemos, não é simples assim. Simplórias são as cabeças  que, na gana de levar adiante seus projetos de discriminação e preconceito, arrasam tudo, relacionam tudo, e sempre com a questão da  homossexualidade. Aí é que a maioria dos raivosos combatedores da palavra gênero realmente querem chegar, mas se enganam quando pensam que podem proibir essa condição simplesmente riscando a palavra do dicionário ou desvirtuando-a. Outros levam para o campo da religiosidade, provocando constrangimentos diversos, e até a infelicidade de muitos casais que se vêem tardiamente envolvidos nesse mal-entendido. Muitos responsabilizam a escola. Esquecem-se de que ela deve ser um espaço laico; uma academia; o lugar onde ‘a verdade’ precisa prevalecer. Ao espaço escolar cabe o controle do convívio e o combate às inúmeras formas de discriminação contra quem se vê na pele de um homoafetivo. E a adolescência é a fase em que se apresentam os problemas relacionados a essa questão: bulliyng, rejeição, discriminação, violência, suicídios e até assassinatos praticados, em alguns casos, pelos próprios pais. Exemplo gritante de desamor: nada mais anti-cristão.

Já o gênero, propriamente dito, define neste contexto as questões ligadas aos papeis da mulher e do homem na sociedade; no ambiente familiar; de trabalho e estudos; resume e ilustra bem a enorme distinção que é dispensada ao gênero feminino nos mesmos papéis desempenhados pelo homem (ser masculino). Vejamos o recente episódio de cassação da ex-presidenta Dilma Roussef: tudo começou com cenas grotescas de xingamentos de baixo calão voltados para o alvo Dilma “Mulher”, gênero feminino, ‘desprotegida’ de um cônjuge que, na cultura machista brasileira, é a figura ideal de mandatário para o cargo supremo de uma presidência, seja ela de uma Câmara Federal, do Senado da República, ou de qualquer câmara de vereadores dos milhares de municípios do Brasil. Não há registro, na História recente do Brasil, de que algo semelhante ao que aconteceu com a MULHER Dilma Roussef tenha ocorrido com alguém do gênero masculino.

Como disse ao abrir essa fala: o equívoco em que estamos mergulhados/as, nos leva a perder o tempo que poderia ser destinado ao enfrentamento dos inúmeros problemas que nos afligem enquanto brasileiros e brasileiras desde que nos firmamos como nação. São questões políticas, econômicas, sociais, de saúde e por aí vai. Umas questões interferem em outras, gerando mais problemas; por outro lado, quando alguma questão grave é sanada, alguma outra ‘nasce’ em seu lugar, dando seguimento à infinita espiral de problemas que a nação brasileira NÃO ENFRENTA com honestidade, desde sua gênese.

Enfim, questão de gênero se resume a isso! Segurança ao sair às ruas, ao viajar de ônibus ou metrô, respeito em seu ambiente de trabalho, igualdade de condições nas disputas eleitorais legítimas, segurança familiar no tocante a não-violência etc. Os problemas suscitados pela irretornável conquista pela mulher de inúmeros espaços, ainda são pouco debatidos e  enfrentados com seriedade, pois a força bruta e os estereótipos milenares pesam contra o gênero feminino que, no entanto, segue der cabeça erguida em direção a seu lugar social definitivo. Quando estivermos mais próximos dessa realidade, veremos o quanto de tempo terá sido perdido com essas protelações, esses discursos enganosos e cegos para os verdadeiros problemas da humanidade. Enquanto essa solução não vem, os pais sofrem com o próprio preconceito e mais ainda com as ameaças da própria sociedade.

Edna Mahnic

 

 

 

Compartilhe esse Post

Com muito ❤ por go7.site