Povos indígenas pobreza e discriminação

Neste último sábado visitamos juntamente com o Vereador Araújo e o Prefeito de Poxoréo Nelson Paim e assessorias a aldeia Indígena Serrinha para uma reunião com os caciques para ouvir as suas reivindicações e constatar as condições para lá de precárias em que vivem as famílias desses povos irmãos que já ocupavam este território antes de nós sulistas, nordestinos, goianos e mato-grossenses.

Existem inúmeros mitos acerca desses povos que precisam ser desfeitos. A começar pelo nome, índio, dado pelos navegantes da esquadra de Pedro Álvares Cabral, que pensavam estar chegando nas Índias, local para onde pretendiam ir.  Outro desses equívocos é o mito de que cada criancinha indígena passa a ter um salário-mínimo assim que nasce. Completa mentira! Esse engano foi implantado no meio da sociedade para fomentar a antipatia aos Indígenas. No meio desses povos só há alguma forma de remuneração para aqueles e aquelas que exercem alguma atividade profissional, como professor(a), enfermeiro(a), agente de saúde etc. Em muitos lugares nem há desses profissionais. Existem também “aposentados e aposentadas”. Abro aqui um parêntese para DENUNCIAR que esse benefício está ameaçado pela REFORMA DA PREVIDÊNCIA proposta.

Vemos, portanto, que eles são tratados em pé de igualdade conosco. Se pararmos para pensar, não possuem riqueza alguma, e ainda são alvo de cobiça das terras que ocupam (e que não são de propriedade deles) e vivem na extrema pobreza material. Como consequência, carecem de materiais básicos, alimentação balanceada e permanente, já que as caças estão desaparecendo.

Quando Pedro Álvares Cabral aportou neste território passou a chamá-lo de Brasil. Não se importou com o fato de aqui já existirem mais de 6 milhões de homens e mulheres. Nos dias atuais, a população indígena brasileira está um pouco abaixo de 1 milhão, mas já foi muito menor. Apesar disso, grande parcela dos brasileiros e brasileiras não-índios possuem sangue nativo, pois durante séculos a miscigenação correu solta no território brasileiro, cujo idioma predominante era, também, o tupi-guarani. A língua portuguesa foi oficializada bem depois, por força de lei.

Os indígenas do Brasil são os verdadeiros donos desses imenso território, mas vivem empobrecidos e encurralados em reservas. Em muitos casos, levam uma vida miserável por conta das regras impostas pela burocracia da FUNAI, órgão do Governo Federal que gerencia a vida civil dessa população. As terras em que vivem são da União, e engana-se quem pensa que os milhões de hectares de reservas são de sua propriedade. Mas há uma série de regras impostas pela FUNAI que precisam ser acatadas por eles, como restrição ao plantio de determinadas culturas e a proibição de criação de determinados animais. Há impedimentos até quanto ao modelo de  determinadas construções. Muitos de nós NÃO SABEMOS DISSO! Apenas taxam os indígenas de preguiçosos, ignorantes, e assim por diante.

Quem visitar uma reserva indígena vai deparar com quadros que pensávamos haver desaparecido há décadas, como a subnutrição e a presença de determinadas moléstias; crianças acometidas por certos parasitas da pele, falta absoluta de condições da higiene mais primária. Tudo por conta da “falta de verbas”, da burocracia e do descaso. O quadro de carência só não é maior devido à presença de entidades religiosas e até ONGs. Mas essas ações são temporárias e só ocorrem por omissão da própria União, Estado e Município. Nesse ponto os três entes federados se igualam ao NEGAR direitos.

O município de Primavera do Leste não possui aldeias, mas convivemos diariamente com essa população cujas reservas se encontram nos vizinhos municípios de Poxoréo e General Carneiro. Precisamos considerar que as questões humanitárias e sociais extrapolam os limites administrativos. Sabemos que grande parcela da nossa sociedade destila preconceito contra os indígenas, ao afirmarem que “os índios têm de permanecer em suas aldeias”. Aqui na cidade são acusados de estar “deixando de ser índios”. Contraditoriamente, é isso o que muitos querem. Tudo é motivo para críticas: se andam calçados ou usam aparelhos eletrônicos; se possuem automóveis ou casas na cidade. Nossa sociedade se esquece de sua própria condição humana: todos nós temos curiosidade diante do novo. Quem é que não gosta de conforto e bem-estar? Todos temos sonhos e projetos. Incluem-se aí os indígenas. Por isso, não podem ficar parados no tempo.

A comparação com nossa sociedade é inevitável até no sucesso. Muitos indígenas estudam e se formam. Alguns se tornam doutores (com doutorado); transitam com desenvoltura pelas maiores cidades do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo que absorvem novos saberes, não se esquecem da tradição de seu povo; coisa que precisamos aprender com eles.

Os não-índios geralmente se referem aos povos indígenas  como se fossem um só grupo. Outro grave erro. Há no Brasil mais de trezentos povos (nações) indígenas. 274 línguas diferentes são mantidas ativas.

 Na atualidade temos nos preocupado com as ameaças explícitas, ditas às claras pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro. Paulo de Frontin (pronuncia-se Frontan), prefeito do Rio de Janeiro em 1910, fez a seguinte ameaça acerca dos indígenas na época: “ou se integram completamente à cultura ocidental, ou serão exterminados”. O presidente eleito ‘prometeu’ asfixiar os povos indígenas ao entregar suas terras para arrendatários, e ameaçou “NÃO REGULAMENTAR NEM UM PALMO A MAIS DE TERRAS PARA ÍNDIOS NO BRASIL”. Paulo de Frontin vivia nos anos 1910; admira que mais de 100 anos depois, um candidato a presidente – agora eleito – tenha feito uma afirmação mais grave do que aquela. O tempo passou, a capital da República hoje é Brasília, mas certas mentalidades não mudaram: está atrasado 50 anos em relação aos nossos indígenas.

 Urge nos posicionarmos, do contrário aquela “limpeza” ordenada pelos idealizadores da MARCHA PARA O OESTE seguirá seu curso do modo mais terrível. Nos anos 1950 e 60 os irmãos Villas-Boas agiram rápido e impediram o genocídio. Hoje essa tarefa cabe a nós. Até o Parque Nacional do Xingú está sob grave ameaça, já que os fazendeiros que o cercam estão esperando apenas o presidente eleito tomar posse para aprofundar as invasões.  

 Quando se quer, a língua não é uma barreira. Nem os costumes. Precisamos agir como mulheres e homens de boa vontade que somos.  E chega de adiamentos. Façamos como o prefeito de Poxoréo que tem visitado algumas aldeias e, nelas, entabulado diálogos olhos nos olhos com a população indígena. Para isso fomos eleitos e eleitas.  Sob pena de perpetuarmos injustiças bem maiores do que aquelas que já são praticadas contra eles.

Compartilhe esse Post

Com muito ❤ por go7.site