Primavera do Leste, crescendo junto com seus problemas.

Primavera do Leste tem um histórico de vida interessante, e o fato de eu ter crescido aqui me faz ser mais apegada ainda à sua trajetória de criação e crescimento, em todos os sentidos.

Na década de 1960, a localidade onde hoje está Primavera do Leste era conhecida por Bela Vista das Placas, Cabeceira do Velha Joana e BR-070. A história deste município remonta ao tempo dos Bandeirantes, passa pela construção da primeira linha telegráfica realizada pelo Marechal Rondon, ligando Vilhena a Cuiabá, estendendo-se até Barra do Garças, chegando aos nossos dias. Esse trajeto determinou o nascimento de nossa cidade.

Projetada para ser a sede de um município agrícola, seu nome foi inspirado na antiga fazenda Primavera que, por sua vez, deu origem à empresa Primavera D’Oeste S.A. A implantação do núcleo “Cidade de Primavera” teve início em 26 de setembro de 1979 com um projeto da construtora do Advogado paulista Edgard Consentino. A placa da sua loteadora trazia o nome da cidade como sendo Primavera, sem a especificação geográfica “do Leste”.

De sua criação e emancipação política até os dias atuais, nossa cidade passou por dias difíceis, mas graças a um espírito empreendedor, nossa gente sempre soube driblar os obstáculos que apareceram. A maioria dos habitantes de Primavera do Leste são bastante zelosos quanto ao traçado urbano da cidade, mas também quanto ao padrão de suas construções, sejam elas comerciais ou de moradia. Demonstram zelo e cuidado com toda e qualquer construção e manutenção, e interferem também nas questões urbanas e sociais.

Mas, de uns tempos para cá, esse cuidado parece não estar surtindo os efeitos ao mesmo tempo cobrados e esperados pela população. Como vimos nessas últimas semanas, em função da quantidade de chuvas, foi a grave a insuficiência na vazão das galerias águas pluviais da cidade, o que provocou alagamentos em muitos pontos da cidade. A rede de drenagem se mostrou incapaz de dar vazão à enormidade de metros cúbicos de água derramadas por um volume de chuva que há muito tempo não ocorria por aqui.  

Nosso município é tido como moderno. É conhecido nacionalmente pela sua grande produção de soja, milho e algodão. Isso traz uma expectativa de qualidade de vida aos habitantes locais, como fruto de uma atividade econômica “POP”, tida como grande alavanca no progresso econômico de Mato Grosso. O que ninguém contava era com esse “efeito colateral” grave que ameaça a tranquilidade do cidadão, da cidadã primaverense,  os alagamentos que são resultante do estrangulamento da capacidade de escoamento do grande volume de água das chuvas, derramado em um curto espaço de tempo, penso que é resultado  dos efeitos de um sério “desequilíbrio ambiental” provocado, de um lado, pelas fazendas com solo desnudado de vegetação, de outro, a área urbana com suas ruas e quintais pavimentadas e cimentados, com pouco ou nenhum vegetal, o que impede a água de infiltrar no solo. Para piorar, o hábito das pessoas em descartar materiais plásticos e outros em bocas-de-lobo, entupindo-os.

Contribuindo com esse quadro, o entorno da cidade é formado por enormes áreas de terra, sem nenhuma barreira de proteção contra a grande quantidade de terra desalojada pelos ventos (poeira), ‘temperada’ com partículas de agrotóxicos que, juntas assoreiam as galerias pluviais da cidade.

Uma calamidade anunciada como essa vem piorar ainda mais a já combalida saúde pública. As enormes somas de dinheiro empregadas na prevenção e no tratamento de doenças; as faltas ao trabalho e as moléstias incuráveis certamente são frutos desse estado de coisas. Diante disso eu pergunto, será que os metros de terra cultivada a mais no cinturão da cidade, insuficientes para aumentar os lucros, mas suficientes o bastante para causar tais malefícios, compensam tantos transtornos?

Após fazer essas considerações, quero, como de costume, fazer uma chamamento às companheiras e companheiros de Parlamento a promovermos uma readequação no nosso código de postura: que englobe não apenas o ordenamento do espaço central e dos bairros de Primavera, mas também o cinturão verde. Chamo a atenção também para o modo como aprovamos as novas áreas que serão comercializadas; penso que não podemos ficar apenas nos papéis a nós apresentados, mas é preciso checar (in loco) o tipo de material utilizado, por exemplo, nas galerias de captação de águas pluviais, tanto no que tange a qualidade quando à adequação desse material, como diâmetro das manilhas, tamanho dos bueiros etc. Não podemos esquecer que se trata de uma obra pública executada pelo setor privado, e que fica oculta no solo da cidade.

Não há mais tempo a perder. Os ciclos da natureza se repetem de modo imprevisível, e não sabemos quando haverá nova torrente semelhante a essa última que, literalmente, castigou os habitantes de nossa cidade. Dessa vez os prejuízos estão sendo somente materiais, mas, de uma outra, vidas humanas poderão ser ceifadas.

Pessoas não morreram, mas muitas tiveram prejuízos e, com certeza, muitas contaminações ocorreram. Menos mal porque Nosso município possui topografia plana. Mas se esse problema se tornar recorrente, todos os anos nessa mesma época o desastre se repetirá com igual ou maior intensidade.  A chuva é a causa mais aparente, mas os causadores, na realidade, somos nós, os imprevidentes moradores. Sabemos quais são os fatores, e eles estão combinados: topografia plana, solo desnudado pela falta de vegetação natural,  acúmulo de lixo nas bocas de lobo e um planejamento urbano não executado em conformidade com o projeto original somados a outros. Sob essa ótica, nem podemos considerar que esse incidente seja um “desastre natural” de verdade, já que claramente trata-se de um problema de ordem geológica e hidrológica.

O que choca é o fato de haver soluções técnicas para isso; Uma coisa é preciso deixar claro: essa questão que vem tirar o sossego dos primaverenses é “democrático” porque afeta todas as camadas sociais da população, tendo o centro da cidade e os bairros mais próximos mais atingidos de igual maneira.

Precisamos repensar nossos quebras molas, que na hora da chuva se torna uma barragem para as aguas.

Repensar o calçamentos dos quintais das casa e comércios, para que cada um absorva a sua chuva

Repensar nossas ruas e o nascimento dos bairros, o cuidado com as nascentes, porque estamos direcionando as aguas das chuvas para elas e assim destruindo nossa fonte de agua.

– Trabalho de conscientização – Escolas, secretarias, entidades, ongs –  Trabalho de conscientização com os seres humanos que jogam seu lixo em qualquer cantos ou para esconder jogam nos bueiros no rios  ex: encontra-se de tudo nos bueiros e nascentes,

Até encontrar um colchão entupindo o bueiro perto da Casa de material de construção Mota, sabendo o quanto que aquele comerciante e as pessoas que moram no Bairro Pioneiro Sofrem nos dias de chuva é um desastre da consciência humana.

Já que não é possível, ou mesmo que fosse, não fica barato contornar esse problema de imediato, a solução seria o uso da Lei 12.608, de 10 de abril de 2012 que instituiu a Lei de Proteção e Defesa Civil,  que se tornou um marco regulatório no País naquele ano. Essa Lei instrui o poder local a dividir responsabilidades com os entes federados (Estado e União) com maior capacidade de financiamento. A solução é mapear as áreas mais afetadas e os riscos ligados a elas, e atuar no sentido de sanar o problema. Mas acredito que podemos atacar em duas frentes: aqui mesmo no município e, mediante algum convênio, junto ao Estado ou União.

Mas lamento que seu projeto inicial, de certa forma, esteja fugindo ao modelo inicialmente pensado. Temo que os sonhos dos imigrantes que aqui aportaram na década de 1960, movidos por uma expectativa de crescimento e realização, estejam, literalmente, sendo levados por água abaixo.

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